quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sobre o Kumon...

Outro dia estava almoçando e recebi de um passante na rua um papelzinho que dizia: Faça Kumon!

Juro. Me veio tudo na cabeça ao mesmo tempo e arrepiei até os pelos do sovaco só de lembrar de minha triste trajetória em tal regime ditatorial.

Eu sempre, SEMPRE fui uma negação matemática. De deixar Aristóteles e Descartes envergonhados por terem nascido. Perguntava coisas subjetivas pra professores e queria sempre entender o porquê de existir aquela fórmula matemática e sua aplicabilidade nas questçoes práticas da filosofia moderna. Ou seja né: Terror de qualquer professor.

O Ku grifado é por minha conta. Perceba a cara de infeliz do menininho da propaganda do negócio. Juro que não influenciei na cara de Ku do menininho desenhado na letra "Ó".


Percebendo o tamanho da minha ignorância, meus pais resolveram me inscrever no Kumon. Pra quem não conhece, é um método de tortura chinesa matemática criado por algum japonês filho de uma puta, que faz você ficar horas a fio sentado diante de problemas matemáticos até eles se tornarem automáticos na sua vida. Tá. Agora vou botar um rapaz do ITA em frente a elocubrações do Gilberto Gil pra ver se torna automática a compreensão dele.

O fato é que eu precisava mesmo de uma mão amiga pra compreensão exata. E lá fui eu ao Kumon. O Professor era o Seu Adalberto, um velho careca com cara de tarado, que aparecia todo bonzinho pra minha mãe, mas era O DIABO. Me odiava justamente por minhas viagens humanísticas demais pra exatidão dele. Além do que, as lições eram intermináveis: bloquinhos e bloquinhos com contas que não cessavam jamais. Eu joguei atrás do armário, na privada, enterrei, joguei no lixo, fiz miséria com aquelas lições de casa, mas elas sempre se multiplicavam.

Velho maldito que fundou o Kumon, senhor Toru Kumon (precisei nem jogar no Google, eu lembro o nome do velho)

Uma vez fingi que fui roubado - com a pastinha e tudo. Ah, lembrando que morava numa cidade de 30 mil habitantes e, se houvessem ladrões, seriam meus vizinhos. Ele olhou com uma cara de putíssimo pra mim e após uma pausa dramática disse:

"Então pelo menos os ladrões vão estudar e ter futuro na vida" ( tipo: diferente de você).

E me deu o dobro de lição pela distração. Daí que ele me xingava, humilhava e descontava a raiva do dia em mim. Eu reclamava pra minha mãe, mas ela só enxergava nele um bom velhinho careca. Até que um dia ele virou o carrinho de mexerica em cima de mim, fez escândalo de novela - onde se passa a mão com violência em cima da mesa derrubando tudo que está sobre ela no chão - e deixando a outra pobre aluninha estática em sua cadeira.

Eu fui embora, chorei rios, e finalmente minha mãe acreditou e resolveu me tirar daquela tortura. Anos se passaram tranquilamente e eu caí no golpe novamente. Abriu-se um novo Kumon na cidade com uma nova professora que foi minha vizinha e é um AMOR DE PESSOA. Daquelas que dá vontade de abraçar e dizer que sente muito por ela gostar de matemática.

E aí quando eu acertava um bloquinho inteiro de lição ela me dava um bombom. Bateu um Alcione Feeling e eu me motivava a acertar tudo pra ganhar bombons. Só que ela era muito boazinha e muito legal, daí eu enrolava até a morte. Não adiantou. Foi torturante e demorou pra poder conseguir a alforria.

Daí que eu me pergunto hoje: Porque, ó Jesus, eu concordava com meus pais e insistia em tirar leite de pedra? Se tivesse feito aula de outros idiomas no tempo que perdi naquela porcaria hoje falaria 7 línguas fácil.

Mas fica a dica: Não faça JAMAIS seus filhos estudarem no Kumon. Ele fez uma criança mais infeliz.

5 lamúrios:

dan disse...

eu lembro quando achamos trocentos bloquinhos escondidos atrás de uma cama ou armário de alguém, kkk tá loco, desespero!

Labaki disse...

Que tristeza... A Matemática é a ciência mais linda que existe, e as pessoas não veem isso por causa dos professores estúpidos.

"Perguntava coisas subjetivas pra professores e queria sempre entender o porquê de existir aquela fórmula matemática e sua aplicabilidade nas questçoes práticas da filosofia moderna. Ou seja né: Terror de qualquer professor."

Deveria ser a PAIXÃO de qualquer professor! A matemática é a língua com a qual foi escrito o universo, e não a "ciência dos números", como alguns estúpidos dizem.

Malba Tahan, o melhor professor de matemática que o Brasil já teve, costumava dizer que "a Matemática é a arte de EVITAR contas".

O que o Kumon tem de inovador (que aparentemente seu professor tarado não conseguiu deixar claro) é que a disposição dos exercícios repetitivos tende a desanuviar a relação que os números e operações matemáticas têm entre si, e não tornar o aluno um computador humano, um algoritmo cada vez mais rápido. O domínio do método permitiria ao aluno transcender a necessidade de contas ("evitar contas"), obtendo uma resposta não só da operação em questão mas do comportamento do problema, simplesmente entendendo a relação abstrata entre os números e operações. (Como assim? A Matemática pode ser abstrata? Uia!). Eu poderia dar uns exemplos, mas isso é um comentário e não outro post. hehehehe

Não é a Matemática que é chata: os professores é que o são. O problema (eu *ACHO*) é que quem vira professor de matemática caiu na graduação de alegre, sem saber o que estava fazendo, ou queria ser engenheiro, ou sei lá.

Hoje eu adoro Matemática (sou doutorando em Eng. Mecânica em uma área com Matemática pesada), mas só descobri isso depois de tê-la estudado anos a fio - eu nunca conseguiria fazer essa escolha consciente na época do vestibular.

Mas quem é esse doido que apareceu de repente comentando no meu blog? heheeheh Tem um link do seu blog no da Amanda. Sou amigo dela, e não resisti ao seu post revoltado sobre Matemática.

Abraço!

Victor Gouvêa disse...

É por isso que eu digo: Gosto é que nem cu, cada um tem o seu, né?

hehe

Brigado pelo comentário, e prazer!

ray disse...

eu fiz kumon também. voltava das férias com todos os bloquinhos (a professora era legal e me dava só 2 folhinhas por dia) em branco. aí dava a desculpa que não tinha tido tempo pra fazer...

Nayara disse...

Eu fiz Kumon também e, confesso, adorava. Espero que não me odeie ou me ache louca por isso Victor hahaha. Adorei o post.